segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A NOIVA DO VERÃO

A noiva do verão
MIDSUMMER BRIDE
Mary Lewis



CAPÍTULO I



Pedalando sua bicicleta por uma alameda que se estendia sob magníficos pinheiros, Eve Tremaine sentia que na¬quela manhã a floresta tinha um toque de sonho. Os raios de sol brilhavam através dos galhos, como se viessem das ja¬nelas de uma grande catedral e o ar estava impregnado do perfume penetrante da vegetação de primavera. Ao longe, de um lugar qualquer da floresta, vinha o grito tímido de um cuco.
Parou a bicicleta numa trilha, tentando captar a repetição daquele som indefinível. Existia alguma superstição a respeito do grito do cuco? Procurou se lembrar, mas como não conseguiu, recomeçou a pedalar, respirando profundamente o ar perfumado pelos pinheiros e dizendo para si mesma que não poderia haver nada tão maravilhoso quanto uma floresta sueca na primavera. Embaixo das árvores, no chão aveludado pelo musgo, algumas framboesas mostravam suas folhas espessas e lustrosas, ainda salpicadas de neve.
Eve Tremaine era uma moça de estatura pequena com rosto oval, olhos de um azul muito escuro, boca bem-feita e cabelos encaracolados de um castanho-dourado. Seu queixo, delicadamente arredondado, tinha uma covinha e a pele era alva como a de uma criança, com sardas espalhadas pelo na¬riz e maçãs do rosto. De jeans e uma camisa xadrez mais parecia uma garota de doze anos do que a moça de vinte que era realmente.
Consultando o relógio de pulso, viu que eram quase nove horas. Tinha prometido a Camila, sua prima, que voltaria a tempo de ir fazer compras com ela. Começou a pedalar com toda energia, atingindo o máximo da velocidade que sua bicicleta antiquada permitia. Ignorava a que distância estava do atalho que levava à casa de seus parentes, mas não se preo¬cupava, sabendo que não encontraria nenhum carro pela frente. Os automóveis trafegavam pela via pavimentada que dava diretamente na estrada principal.
Só avistou o atalho quando já se encontrava diante dele, pois sua entrada estava encoberta pelas árvores. Precisou bre¬car violentamente e, naquele momento, um homem a cavalo veio a seu encontro em grande velocidade. Foi tudo tão rápido que Eve mal teve tempo para pensar. Instintivamente pro¬curou se desviar do cavalo, que, assustado, empinou-se sobre as patas traseiras. Por uma fração de segundo, o animal este¬ve prestes a cair sobre ela. Felizmente, ele se virou a tempo e fugiu numa disparada louca pela estrada. Atingido na testa por um galho de pinheiro, o cavaleiro estava caído à beira do caminho. Assustada, Eve soltou um grito. Estava morto?
Aproximou-se cautelosamente para examinar a vítima es¬tendida de costas e imóvel. Era um homem muito alto, vestido de culote e com uma camisa esporte aberta no pescoço. Eve se ajoelhou para olhar o rosto dele. Era jovem e bonito. Ti¬nha um nariz reto e fino como o de um aristocrata, sobran¬celhas espessas e pretas e uma boca maravilhosamente bem talhada, cujo lábio inferior carnudo atraiu seu olhar. Sua tez era clara como a dos escandinavos, com um leve rosado nas maçãs do rosto. Os cabelos, que pareciam macios e sedosos, eram de um castanho-escuro avermelhado; Eve sentiu um desejo imenso de afastar a mecha ondulada que pendia sobre sua testa.
Quem podia ser, para passear tão displicentemente pela floresta que pertencia ao conde von Stjerna? Ninguém na região se aventuraria a invadir aquela propriedade. Sentiu que seu coração batia mais acelerado ao pensar que o ferido talvez fosse o próprio conde. Entretanto, segundo Camila, ele estava em Estocolmo a negócios e ficaria lá durante alguns dias ainda.
Ficou aliviada ao ver que o homem respirava. Ajoelhada, continuava examinando o rosto dele, sem saber se deveria ir procurar socorro ou esperar que ele se reanimasse. Então, ele soltou um gemido e mexeu o braço. Em seguida, abriu os olhos e Eve sentiu a intensidade daquele olhar magnético. Os olhos do desconhecido eram de uma cor estranha: tinham a tonalidade da avelã, com pequenas manchas verdes e douradas ao redor e, por um momento, pareceram-lhe inexpressivos. Mas, assim que o homem recobrou os sentidos, deixando escapar uma verdadeira torrente de palavras em sueco, os olhos também se animaram.
Ela recuou, temendo a ira estampada em sua expressão. Ele conseguiu se levantar, levando a mão à testa.
— Lamento... muito — disse ela em inglês. — Espero que não tenha se machucado. Jamais pensei encontrar alguém no atalho... — A voz faltou-lhe ao ver o brilho daqueles olhos.
— Quem é você? — perguntou o desconhecido, também em inglês. — O que está fazendo em minha propriedade? — E, olhando à sua volta, disse: — Com os diabos! Onde foi parar meu cavalo?
— Sou Eve Tremaine. Estava passeando de bicicleta, quando seu cavalo... — Parou e apontou para o atalho. — Foi por ali...
— Ora! — Ele tentava se controlar. — Você é a prima americana de Camila que veio conhecer a família! E eu... — Empertigou-se. — Sou Max von Stjerna. Futuramente, é favor se lembrar de que costumamos cavalgar por aqui; pro¬cure ser mais cuidadosa. Poderia ter morrido se meu cavalo a atingisse. — Batendo os calcanhares e ainda irritado, despediu-se com uma mesura e saiu pelo atalho à procura de seu cavalo.
Indignada, Eve acompanhou-o com o olhar. Ele tinha o direito de estar aborrecido, mas não precisava se mostrar tão colérico! Se era assim que os representantes legítimos da aris¬tocracia sueca se comportavam, ela teria preferido conhecer um camponês simpático e despretensioso! Como é que Camila o agüentava?
Tornou a pegar a bicicleta e seguiu pelo atalho. Não estava longe da casa de seus tios, que ficava atrás de um bosque de bétulas. Era uma casa de fazenda no estilo típico dessa re¬gião da Suécia, pintada num tom avermelhado e com a cobertura de telhas. Havia um pequeno alpendre na frente e por cima dele uma sacada que dava para o vestíbulo do andar superior. A maioria das residências tinha essas sacadas, comu¬mente usadas para arejar as roupas de cama.
Eve sabia que a casa atual de seus parentes pertencera antes ao administrador de uma vasta propriedade conhecida por Lyckan. Ouvira contar que a antiga casa senhorial tinha sido inteiramente queimada e a mata havia crescido, cobrin¬do seus alicerces, os gramados e jardins que a cercavam na¬quela época.
As terras da fazenda, que antes faziam parte das propriedades Lyckan, pertenciam atualmente a Rosenborg, a pro¬priedade vizinha, cujo dono era o conde von Stjerna. Eve igno¬rava os reveses sofridos pela família, pois os Trilling, seus tios, mostravam certa relutância em comentar o assunto, embora isso tivesse ocorrido há muito tempo, em meados do século XIX. Sabia que Lyckan queria dizer felicidade, um nome irônico para uma propriedade que teve um fim tão infeliz.
Durante toda a vida Eve tinha se sentido fascinada por sua imagem sueca. Sua mãe fora uma Trilling e seu avô emi¬grara para os Estados Unidos na mudança do século, com a esposa e uma filha ainda bebê. Seu pai, Peter, não era de ascendência sueca e sua mãe não parecia muito interessada na história de sua própria família. Mesmo assim, Eve procurava descobrir tudo o que podia acerca de seus parentes suecos e sempre esperou ardentemente pelo dia em que pudesse eco¬nomizar o bastante para visitá-los.
E esse dia, agora, tinha chegado.
A família que, no momento, residia em Lyckan era cons¬tituída de Martin Trilling, primo de sua mãe, sua mulher.
Olivia, e duas filhas, Camila e Blenda. Havia ainda um filho mais velho, Pelle, que depois de casado tinha mudado para Goteborg. Camila era da mesma idade que Eve e Blenda tinha dez anos.
Quando ainda meninas, Eve e Camila tinham iniciado uma correspondência regular. Como o inglês fosse ensinado nos colégios suecos a partir do terceiro ano, Camila sabia escrevê-lo e o falava corretamente. Por sua vez, Eve estudou o sueco por conta própria durante alguns anos.
Mal se formara numa escola secundária de Chicago, onde nasceu e se educou, Eve se empregou como secretária numa clínica médica e começou a economizar para poder ir à Sué¬cia. Estava ali agora gozando uma licença de seis semanas e pretendia aproveitá-las ao máximo. Pensava ficar um mês com os Trilling. Depois tomaria um ônibus para fazer uma excursão pela Suécia, antes de regressar a seu país. Camila a convidara para assistir às festividades do mês de junho, principalmente porque se casaria no dia de São João. Seu noivo era Max von Stjerna, que estava viajando quando Eve che¬gou. Até aquele malfadado encontro na floresta, ela não o conhecia.
Depois de apenas uma semana, Eve já gostava imensa¬mente de toda a família, que a recebera carinhosamente. Quem mais despertava o seu interesse era Martin. Pelas cartas de Camila, sabia que ele agora estava aposentado, devido à sua saúde precária, tendo trabalhado como contador numa fábrica de aço. Seu hobby era colecionar lendas antigas referentes a Värmland, a província em que viviam.
Mal havia chegado, Eve descobriu que ele era um ho¬mem inteligente, que se expressava com clareza ao narrar as histórias maravilhosas do passado. Ela gostava principalmente das que se passavam na década de 1820, a Idade de Ouro de Värmland, quando o minério de ferro foi descoberto e os proprietários rurais enriqueceram graças às suas fundições. Posteriormente, as fundições comerciais superaram as parti-culares e o dinheiro delas foi diminuindo.
Entretanto, a época tinha sido maravilhosa.
Prósperas, as grandes mansões viviam cheias de hóspedes — escritores, cantores e artistas de todos os gêneros —, que traziam um certo encanto para as vidas prosáicas de seus proprietários. Eve imaginava que devia ter sido um período fascinante, quando as florestas sombrias eram habitadas por lobos, ursos imensos, o terrível lince, e mais os entes sobrenaturais, os duendes e feiticeiros que lhe pareciam tão reais quando ouvia as histórias de Martin.


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