terça-feira, 30 de dezembro de 2014

CILADA PERIGOSA - VANESSA JAMES

Cilada Perigosa
Prisoner
Vanessa James




Rafael Pierangeli parecia uma pessoa comum. Parecia...
Roma era um verdadeiro convite ao prazer de viver. Uma cidade encantada, que conquistou Julia desde o primeiro momento. Ela adorava percorrer suas ruas e praças, misturar-se aos turistas nas tardes ensolaradas de verão...
Não suspeitava que, entre a multidão que enchia as ruas, um homem a seguia todos os dias. E não era um homem qualquer! Ele se destacava pela maneira de andar, pelo rosto bonito, pela pele bronzeada e, sobretudo, pelo olhar penetrante. Esse homem preparava uma surpresa para Julia!



CAPÍTULO I



Atrasada para o encontro, Júlia apressou o passo, pois não queria deixar Christina esperando. Ao mesmo tempo, divertia-se com aquela caminhada pelas ruas de Roma. O dia estava claro, e o calor do início da primavera melhorava seu ânimo. Aliás, qualquer dia na Cidade Eterna era especial e excitante.
Depois de passar pela porta suntuosa do Hotel Hassler, Júlia alcançou o topo das escadarias da Praça de Espanha e parou por um instante para apreciar sua vista favorita: os degraus repletos de barracas de flores; o balcão da casa onde morrera o poeta Keats; e as ruas, lá embaixo, com seus edifícios antigos.
Era o começo da tarde, e, mesmo havendo poucos turistas pelas ruas, as escadarias da praça estavam cheias de visitantes. Aqui, um grupo de estudantes americanos; mais adiante, um jovem dedilhando uma guitarra. Muitos homens viravam a cabeça à passagem daquela moça alta e esguia, de cabelos loiros balan¬çando sobre os ombros. Júlia vestia roupas simples: jeans, uma camiseta branca, e calçava sandálias de couro cru. Mesmo assim, não parecia uma pessoa comum.
Quando um dos estudantes soltou um galanteio em voz alta, ela se voltou com um sorriso nos lábios. Esperançoso, o rapaz levantou-se do degrau onde estava sentado, mas Júlia o conteve com um olhar duro. A propósito: seus olhos azuis, com pestanas negras, sempre enviavam mensagens inequívocas: "Não se atre¬va", diziam eles, e até o mais persistente dos italianos recuava diante de sua expressão.
No começo de sua temporada em Roma, cada vez que Júlia saía de casa, era perseguida por um verdadeiro séquito de admi¬radores. De todos os lados apareciam convites para drinques e jantares. Ela se sentira lisonjeada, mas, com o passar do tempo, abandonara as festas, encantando-se cada vez mais com a cidade.
Num impulso, Júlia parou em um dos degraus e comprou um ramalhete de violetas, falando com o vendedor num italiano qua¬se sem sotaque. Aspirou o perfume das flores, e por um instante ficou imóvel, pensando apenas na primavera que se anunciava. Antes de retomar a descida, olhou ao redor e seu sangue gelou.
Lá estava de novo aquele homem! Não havia dúvida de que era o mesmo. Parado no final da escadaria, apoiava a mão no muro e a fitava sem a menor discrição. Por um breve instante, seus olhares se cruzaram. Júlia enrubesceu. Realmente, não se enganara: ele era do tipo que não se esquece tão facilmente.
Talvez fosse italiano, apesar de ser bastante alto para um lati¬no. Aparentava mais de trinta anos. De porte atlético e ombros largos, possuía a pele morena e os cabelos negros, longos e cuidadosamente penteados. Ele acabara de pôr óculos escuros, que lhe escondiam por completo a expressão, mas no dia ante¬rior mostrara os olhos escuros, profundos, encimados por sobran¬celhas bem arqueadas.
No momento, ele vestia uma camisa marrom, de colarinho aberto, por baixo de um terno claro, de fina confecção. Não ostentava nenhuma das jóias que a maioria dos italianos usava: correntes de ouro no pescoço, braceletes de plaqueta nos pul¬sos... Era um homem bonito, ou melhor, muito bonito. E dava a impressão de ser rico, para completar.
Júlia não entendia aquele mistério. Era o quarto dia consecuti¬vo que o encontrava pela frente. A primeira vez ocorrera na tarde em que ela levara Christina para visitar as ruínas do Fó¬rum; no dia seguinte, vira-o no Museu do Vaticano. E, na véspe¬ra, em um dos restaurantes do Trastevere, onde tinha ido almo¬çar. Agora, lá estava aquele sujeito, de novo!
Impossível imaginar que tantos encontros fossem mera coinci¬dência! Por que aquele homem se comportava desse jeito? Até então, ele não fizera qualquer tentativa de abordá-la. Limitava-se a olhá-la fixamente, como fazia agora, sem esboçar um único gesto, o que a deixava nervosa e perplexa.
Júlia ainda teve vontade de se aproximar e perguntar-lhe à queima-roupa: "Por acaso, o senhor está me seguindo? Vou de¬nunciar à polícia!" Entretanto, não se atreveu. Se estivesse enga¬nada, faria papel de tola. Além disso, precisava ser cautelosa, principalmente por causa de Christina. Afinal, quando aceitara o emprego, fora alertada sobre a onda de seqüestros e assaltos à mão armada que aterrorizava o país. As palavras de Giovanni Contadelli, pai de Christina e o segundo maior industrial da península, ainda ecoavam em seus ouvidos.
Júlia preferiu relancear um rápido olhar em seu perseguidor, para memorizar suas feições morenas, e então surpreendeu-o com um sorriso zombeteiro nos lábios.
"Que vá para o diabo!", pensou ela com seus botões. Prova¬velmente, era mais um dos famosos conquistadores italianos, usando outra técnica. Porém, por precaução, decidiu mencionar o fato à família Contadelli.
Prosseguiu a caminhada, depois de olhar por cima do ombro. Tudo bem. Ele não a estava seguindo. Mesmo assim, resolveu tomar um outro caminho para despistá-lo. Entrou e saiu de vielas e galerias e, naturalmente, atrasou-se ainda mais.
Quando finalmente chegou à confeitaria onde combinara o encontro com Christina, estava com meia hora de atraso. O local, muito conhecido, fora escolhido por causa da clientela, pessoas da classe média alta, respeitáveis e em sua maioria idosas. Júlia não queria arriscar-se a ir aos lugares preferidos por Christina: lanchonetes da moda, com mesas espalhadas pelos calçadões.
Apesar de Christina ter apenas quinze anos, aparentava dezoi¬to e era extremamente descuidada na escolha de suas amizades.
Agora, ela se encontrava em uma das mesas mais resguardadas da confeitaria. Por sorte tudo parecia em ordem. O guarda-costas continuava com ela, pronto para interceptar qualquer um dos rapazes a quem a jovem milionária costumava dar atenção.
Baixinha, muito maquilada Christina estava de mau humor, como sempre. Para contrariar o pai, cortara os cabelos curtinhos, quase rentes à cabeça. Seus olhos exibiam um pesado delineador, e a boca, um batom vermelho-sangue. Como de hábito, ela usava uma minissaia muito justa e uma blusa curta, que lhe deixava a barriga à mostra.
Dezoito anos? Qual nada! Agora ela parecia uma mulher feita, com idade indefinida entre vinte e cinco e trinta anos! Entretanto, era apenas uma adolescente, filha de Giovanni Contadelli, e herdeira, juntamente com o irmão mais velho, de uma fortuna avaliada em duzentos milhões de dólares!
Ao ver Júlia chegando, Christina resmungou de irritação, apa¬gando com raiva o cigarro que estava fumando, embora acendesse outro em seguida.
Júlia suspirou, perguntando-se por que aceitara aquele maldito emprego de "acompanhante cultural".
Christina não devia fumar daquele jeito, nem se vestir de maneira tão provocante, e muito menos implicar com os garçons como fazia. Mesmo estando temporariamente afastada do colégio Le Rosey, na Suíça, que a ameaçara de expulsão, tal como as outras escolas anteriores. Só que, desta vez, Giovanni persuadira a diretora de que, após alguns meses de afastamento, a filha iria melhorar.
Nesse ínterim, Júlia fora incumbida de fazer com que a jovem aumentasse seus conhecimentos de inglês e francês, e ampliasse sua cultura geral, visitando museus, lugares históricos, galerias de arte, assim como assistindo a concertos, óperas e teatro. Outra responsabilidade de Júlia era evitar que a garota se metesse em encrencas, embora quanto a isso houvesse poucas perspectivas de sucesso. O emprego lhe fora oferecido em consideração ao pai, já falecido, que na juventude tinha sido colega de escola de Giovanni. Impulsivo, ao conhecer Júlia, o milionário resolvera que ela era a moça de que precisava para tutelar a filha problemática.
Júlia aceitara a tarefa, levada por necessidade financeira, e, pouco tempo depois, Giovanni partira a negócios rumo à América do Sul. Desde então, nunca mais o vira.
Ao aproximar-se da mesa, ela acenou, sorridente, mas Christina simplesmente a ignorou.

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