quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

MENSAGEM PARA VOCÊ

SÓ EXISTE UM JEITO DE SABER SE ELE E O HOMEM CERTO...

... Após o sinal, deixe seu recado...
Tracy, você está aí? Sou eu, Kate. Tudo bem? Tenho três coisas para contar. Aprimeira é que estrearei em sua festa um sutiã que faz meus seios parecerem os da
Jennifer Lopes. A segunda é que não me responsabilizo pelo que farei à noite se tiver de
suportar a conversa dos advogados amigos de Tom. Em último lugar; não importa quem
você esteja tentando me apresentar em sua festa, minha resposta será um redondo não!
Quero alguém que dispare faíscas no meu coração! Após o sinal, deixe seu recado...
Kate, aqui é Tracy, sua melhor amiga, lembra-se? Por mais que você tente me
convenci não acredito que alguém possa disparar flashes em seu coração. Olhe para
Tom, meu noivo. Ele não dispara faíscas, mas é bom, honesto e agradável. Bem, ele tem
o costume de olhar para o relógio durante o sexo, e eu mato você se contar isto a alguém!
Eu acho que você deveria ser menos exigente com o amor. Amor de cinema não existe!
...deixe sua mensagem
Tracy, aquele recém contratado do escritório de Tom que você me apresentou era
uma graça, mas eu não senti a faísca. Devo ligar para ele ou me afundar em um milk
shake
...deixe seu recado
Kate, posso lhe contar um segredo? Eu senti a faísca. Mas não foi com Tom. E
agora? 0 que a gente faz quando sente a faísca certa pelo homem errado?
Neste delicioso romance de estreia, Kelly James Enger conduz duas grandes
amigas da cidade de Chicago a uma vertiginosa viagem por altos e baixos em que o que
sentimos e como sentimos é tudo o que importa.
Capítulo I
E aí, você já gugou alguém?
É comum ouvir falar que o mal de coração partido faz perder peso. Se fosse
verdade, por que ela estava engordando a olhos vistos?
Diante do espelho, que ocupava a porta inteira do lado interno do closet, Kate não
se conformava com a figura que ela estava refletindo. Não bastava ter os cabelos com
que se preocupar? Embora ainda estivessem na primavera, a umidade em Chicago
estava alcançando índices tão absurdos que não havia cosmético capaz de deixá-los
decentes por mais de uma hora, quanto mais apresentáveis. Naquele exato minuto, por
exemplo, o penteado estava em ordem, mas se ela se atrevesse a sair de casa e
enfrentar o vento, eles já estariam pesados e oleosos antes que ela conseguisse chegar a
seu destino.
Estava satisfeita com a maquilagem ao menos. Leve e suave. Apenas um toque deblush para dar um aspecto saudável ao rosto, de rímel nos cílios e batom cor de rosa nos
lábios. Como acessórios: brincos prateados de argola, meias cor da pele e seus sapatos
pretos favoritos da Sam and Libby's.
Pés e cabeça resolvidos. Agora só faltava arrumar a parte que ligava os dois
extremos. Ela já havia separado e rejeitado quatro roupas que esperavam em uma pilha
desordenada no meio da cama para serem devolvidas às gavetas ou aos cabides.
Não tinha o que vestir. Suas opções eram apenas duas: oito ou oitenta. Elegantes
conjuntos clássicos (sem graça) e blusas tradicionais de mangas compridas para o
trabalho ou jeans, camisetas e blusas de moletom dos tempos da faculdade, quando não
do colegial, para ficar em casa. Em suma, ela não tinha nada com que ir à festa. Aliás,
não estaria nem sequer cogitando em se apresentar por lá se a anfitriã não fosse sua
melhor amiga.
A razão, a única razão, que a levara a fazer o sacrifício de aceitar o convite era
Tracy. Porque a amiga virtualmente implorara para que ela fosse quando tentou dar uma
desculpa por telefone e não comparecer ao evento.
— Favor, favor, favor, Kate, é muito importante! Juro que não se arrependerá! Não
faltarão homens bonitos para deslumbrar seus olhos! — Tracy baixou o tom de voz. —
Não faça isso comigo, Kate. Não pode me deixar-aqui sozinha com Tom e aquele bando
de advogados!
— Veja como fala! — Kate protestou em tom de brincadeira. — Esqueceu que
também sou formada em Direito?
— É justamente por causa disso que você não pode faltar! Em meio a tantos colegas
de profissão, tenho certeza de que pelo menos um atenderá seu perfil.
— Eu sabia! Meu sexto sentido não costuma falhar. Você já tem alguém em vista
para me apresentar, não tem?
A hesitação de Tracy era um sinal de que Kate havia acertado o palpite.
— Não lhe custará nada conhecê-lo, Kate. — Nova hesitacão. — Como é mesmo o
nome dele? — Kate escutou Tracy estalar os dedos do outro lado da linha. — Gary, eu
acho. Ele acaba de ser contratado para trabalhar no escritório de Tom. É simpático, lindo
e é solteiro...
Tracy se deteve para verificar o impacto da notícia, mas como Kate continuou em
silêncio, ela optou por mudar de tática.
— Olhe, você precisa sair. Mulheres que acontecem não ficam em casa aos
sábados assistindo à programação do canal Discovery, em especial as que moram nos
arredores do Lincoln Park, e mais exatamente em Lakeview, o local mais badalado da
cidade. Elas estão sempre prontas a experimentar novas emoções e novos homens.
— Tracy, dá um tempo, está bem? O que tem de mais eu gostar de Planeta Feroz?
É disso que eu preciso, você sabe. De alguém que fique em casa comigo e curta assistir
aos documentários sobre fenômenos naturais. Essa história de se preocupar com roupas
e viver atrás de novas aventuras não é comigo.
— Eu entendo. É claro que entendo. Mas como espera encontrar alguém que fique
em casa com você, sem antes sair para conhecê-lo? Homens não faltam, Kate! Eles
apenas não vêm bater a nossa porta!
— Você se esqueceu de um detalhe, minha querida. Nós moramos na mesma
vizinhança. Você nunca percebeu que a maioria desses belos rapazes que encontramos
pelas calçadas são gays?
Tracy suspirou do outro lado.
— Você disse bem. A maioria, não todos.
— Está certo! Está certo! — Kate finalmente se deu por vencida. — Daqui a pouco
estarei aí.
— Muito bem, garota. Prometo que será divertido. É só você aparecer.
Essa era a diferença entre Kate e sua melhor amiga. Tracy sempre via o lado bomde uma situação. Tracy era uma otimista até debaixo d'água. Algo a ver, sem dúvida, com
o fato de ter crescido ouvindo a mãe dizer às três filhas, dia após dia, quanto elas eram
abençoadas por terem nascido perfeitas, por terem braços, pernas, e serem capazes de
ouvir, de ver, de falar e de raciocinar. Segundo Dotty Wisloski, reclamações não resolviam
os problemas. Ao contrário, pioravam.
Os pais de Kate, em contrapartida, incutiram na mente da filha apenas o lado prático
das coisas com toques de estoicismo. O lema da família Becker, se é que dava para
chamar de lema, era o seguinte: "Trabalhe muito, fale pouco e ligue a televisão".
Agora, voltemos a procurar uma roupa para Kate ir à festa.
Kate tirou do armário uma saia preta de linha e colocou-a diante do corpo antes de
se olhar ao espelho. Depois virou para o lado e examinou seu perfil. A barriga estava
enorme por causa da TPM. Colocar a blusa por dentro era algo fora de cogitação,
portanto. Do jeito que sua barriga inchara, não havia meia calça no mundo, stretch ou não
stretch que pudesse resolver o problema. A blusa cor de rosa de gola em V, da Liz
Clairborne, parecia ser a única opção. Vestiu-a. O tecido, embora aderisse ao corpo, não
ficou mal. Mas dava para ver a renda do sutiã.
Que saco!
Kate tirou a blusa com impaciência e trocou o sutiã que estava usando por um
modelo de cetim que havia comprado em Victoria Street em um desses arroubos que
somente as explosões hormonais deveriam tentar explicar e que coincidiu com a época
em que ela acabara de conhecer Andrew. Ou seja, comprou-o com intenção de seduzir
Andrew e alcançou seu intento, apesar de logo ficar claro que não iria dar certo entre eles.
Com o sutiã de cetim, Kate tornou a se mirar ao espelho e deixou escapar uma
exclamação. E agora? Os seios estavam saindo pelo decote! A impressão que dava era
que o sutiã iria estourar a qualquer momento. Por outro lado, não deixava de ser um
consolo. Enquanto olhassem para o decote, as pessoas não iriam prestar atenção em sua
barriga.
A distância entre o apartamento de Kate e o de Tracy e Tom era de seis quadras,
seguindo em direção leste pela ruas Wellington até a Sheridan. Enquanto caminhava,
Kate pensou que gostaria de encontrar o gênio da lâmpada para lhe conceder dois
desejos: Um, que não estivesse tão quente e úmido de modo que pudesse chegar à festa
com os cabelos e a maquilagem intactos. O outro, e mais importante, era que mais
homens bonitos preferissem o sexo oposto. Porque moradora que era do bairro conhecido
como Boystown, uma grande comunidade gay, ela já havia quase se convencido de que
se um sujeito era bonito, vestia-se com elegância e era dono de um corpo atlético, a
grande chance era de que jogasse no outro time.
O porteiro do prédio onde moravam Tracy e Tom, um senhor de cerca de sessenta
anos, sorriu para ela. Como era mesmo o nome dele? Roger? Roy?
— Vai à festa? — ele brincou enquanto ajeitava a gravata.
— Como não ir? Tracy insistiu tanto que eu tive de abrir uma exceção. — Kate
inclinou-se para ele e baixou o tom de voz. — Parece que haverá homens por lá.
O porteiro achou graça do jeito de Kate. Ela visitava com frequência os moradores
do apartamento 271. E era sempre atenciosa com ele.
— Você está muito bonita esta noite. Todos eles vão querer conhecê-la.
— Obrigada — Kate agradeceu.
Com o pessoal da terceira idade, Kate não tinha problemas era de Tom. Ele o havia
comprado havia dois anos, depois de terminar a faculdade, com a herança deixada pela
avó. Na época, ele e Tracy haviam completado o terceiro ano de namoro e lhes pareceu a
ocasião certa para juntarem suas coisas e morarem juntos. Tracy hesitou antes de tomar
a decisão. Afinal, por que Tom iria querer se casar com ela um dia, se já estavam juntos?
As palavras que usou para Kate, na verdade, foram estas: "Por que ele irá querer comprar
a vaca quando tem o leite de graça?"

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