segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O SABOR DO ESCÂNDALO

LIVRO


Prólogo Nova Iorque, 1990
Retornava ao Palmetto. De pé, ante a janela do despacho, Jade Sperry regulou a persiana e contemplou o engarrafamento ao redor do Lincoln Center. Um vento frio açoitava as esquinas com o mesmo ímpeto com o que os ônibus  expulsavam  fumaças  nocivas  no  ar  poluído.  Os  táxis  se  escorriam  de  um  sulco congestionado a outro, como frenéticos escaravelhos amarelos. Os pedestres nunca interrompiam o passo, mas sim continuavam movendo-se, obstinados a suas coisas. Quando se transladou a Nova Iorque, Jade teve que lutar para poder-se adaptar a tão constante movimento. Ao princípio os cruze lhe pareciam perigosos. Não havia nada tão horrível como estar de pé, no meio-fio de uma concorrida avenida de Manhattan, perguntando-se quem seria o primeiro em levar-lhe por diante: um táxi ameaçador, um pesado ônibus ou o turba de gente que lhe pisava nos talões, cada vez mais impaciente com o forasteiro cuja forma de falar era tão lenta como o vacilante modo de caminhar. Como em cada provocação, Jade baixou a cabeça e abordou a situação. Não se movia tão rápido nem entendia tão depressa nem falava com tanta fluidez como os nativos, mas não se sentia intimidada a não ser tão somente algo diferente. Não lhe tinham ensinado a fazer as coisas com

muita rapidez. Jade Sperry tinha crescido em um ambiente onde o indivíduo mais ativo em um dia do verão era uma libélula em vôo rasante sobre um pântano. Ao chegar a Nova Iorque já estava acostumada ao trabalho duro e ao sacrifício pessoal. Assim é que se aclimou e pôde sobreviver, porque seu obstinado orgulho da Carolina do Sul era tão característico como sua forma de falar. Hoje, tudo tinha merecido a pena. Milhares de horas empregadas em fazer planos, maquinações e duro trabalho se viam o fim recompensadas. Ninguém seria capaz de adivinhar quantos anos e lágrimas tinha investido para voltar para sua cidade natal. Retornava ao Palmetto. Ali estavam aqueles que tinham muito que expiar, e Jade se ocuparia de que o fizessem. Tinha ao alcance da mão a vingança com a que tanto tinha sonhado. Agora gozava do poder para convertê-la em realidade. Continuou olhando através da janela, mas muito pouco do que ocorria ali abaixo lhe chamou a atenção. Mas bem divisava altas ervas ondulantes em restingas costeiras. Podia cheirar o picante ar  salgado  e  as  embriagadoras  magnólias.  Saboreava  a  cozinha  do  campo.  Altos  pinheiros substituíam aos arranha-céu; as largas avenidas se convertiam em canais de água que fluíam lentamente. Recordou como se sentia ao respirar um ar tão forte e espesso que nem sequer agitava o cinza e débil musgo que pendurava dos ramos dos velhos carvalho

                                            BAIXAR

Nenhum comentário:

Postar um comentário