domingo, 20 de dezembro de 2015

PRESENTE SECRETO



Presente Secreto
(The Secret Gift)

Jaclyn Reding


Um amor que transcende o tempo!

Ao partir de Nova York para o interior da Escócia a fim de desvendar os segredos de seus antepassados, Libby não podia imaginar o que a esperava do outro lado do oceano... Num castelo medieval localizado nas Terras Altas escocesas, ela conheceu Graeme Mackenzie, um homem misterioso cujo simples olhar a fazia estremecer. Mas Libby não podia se entregar à força dos sentimentos que pulsavam em seu peito enquanto não descobrisse qual o verdadeiro legado que a mãe lhe deixara. E a resposta para suas dúvidas estava justamente ali, no castelo encravado no alto das montanhas verdejantes...

Jaclyn Reding é autora de romances históricos e contemporâneos, que lhe renderam vários prêmios, incluindo o famoso RITA. Seus livros são traduzidos para cerca de doze idiomas e são sucesso de vendas no mundo inteiro. Para Jaclyn não existe profissão melhor que a de escritora.




Libby observava a mais recente obra que haviam adquirido, uma rara edição do livro A Décima Musa de Anne Bradstreet, quando a campainha do telefone soou.
Segundos depois, a balconista. Rosália, surgiu à porta do escritório com a fisionomia séria, o que não era habitual.
— Telefone para você, Libby. É... — hesitou, mordendo o lábio inferior. — Parece importante.
Libby nem mesmo perguntou quem era. Com o coração acelerado, levou o fone ao ouvido.
— Isabella... é o dr. Winston. Estou ligando para... Receio que... Bem, é sobre Matilde.
Aquilo tinha acontecido há uma semana. Mas, na verdade, parecia ter passado uma eternidade desde que recebera o terrível telefonema.
Agora se encontrava na sala de estar da casa em estilo vitoriano que fora de sua mãe, situada na histórica aldeia de pescadores Ipswich, Costa Norte de Massachusetts. Lá despendera as últimas três horas recebendo condolências das pessoas da cidade na qual havia crescido.
Fora um dia longo e exaustivo.
Aproveitando um momento de calma, olhou através da janela da frente, contemplando a imensidão cinza do Atlântico Norte. As vidraças pareciam ondular devido ao reflexo das águas e a confortável sala de estar ostentava um brilho pálido de outono.
Quase se esquecera do quanto amava aquele lugar. A casa, erguida há mais de cento e sessenta anos sobre um penhasco rochoso, era uma construção idílica com a rústica plataforma de madeira voltada para o mar e um portão enferrujado pela maresia. No interior, as paredes eram forradas por um delicado papel com motivos florais. Havia ainda uma lareira, sobre a qual vários porta-retratos exibiam cenas de momentos felizes vividos ali.
Não se dera conta até aquele momento de que o imenso relógio de gabinete de cerejeira havia parado exatamente ao meio-dia. Estava sem corda desde a manhã em que sua mãe falecera. Era um detalhe triste vê-lo parado. Afinal, sempre fora o coração da casa.
Naquela sala, que conservava o mesmo aspecto de quando a deixara, Libby brincara quando criança e passara belas tardes de verão ao lado da mãe. Todos os anos celebravam o Natal junto ao calor da pequena lareira, decorando um enorme pinheiro com guirlandas, luzes e enfeites coloridos. Mais uma vez, olhou ao redor de si e permitiu que as lembranças aflorassem. Estendido sobre o piso ainda havia o mesmo tapete sobre o qual aprendera a dançar a valsa com o pai. No canto direito, o piano e o batente da porta de entrada exibiam as marcas da evolução de sua altura. Esboçou um pequeno sorriso, lembrando-se de como erguia os calcanhares um pouco acima do chão para aparentar mais altura do que na realidade tinha. Lembrou também que sua mãe sempre descobria essa artimanha.
— Abaixe os pés, Isabella Elizabeth Mackay Hutchinson — dizia a voz suave com um leve sotaque escocês.
Libby sempre odiara o fato de não ser alta, magra e loira como sua amiga Fay Mills que se tornara modelo de sucesso aos dezesseis anos. Fay sempre tivera o rosto perfeito, o corpo perfeito e até mesmo o nome perfeito.
Por mais que tentasse, não conseguia imaginar uma modelo chamada Libby. Sempre fora uma pessoa comum. Altura e peso normais, cabelos pretos comuns e olhos que possuíam um tom mais cinza do que azul. Recebi um salário mediano e mora em um apartamento pequeno na West Seventy-Sixth. E como passava a maior parte do dia cercada de livros velhos, usava roupas básicas. Até mesmo seus sapatos eram básicos, com saltos baixos para escalar escadas dobráveis que levavam às prateleiras mais altas das estantes da loja.
Porém, a mãe discordava dessa opinião.
— Você não é uma pessoa comum, Isabella Elisabeth. Para mim será sempre minha primeira e única...
A primeira e única criança que Matilde Mackay Hutchinson gerou.
Apertando as pálpebras para conter a avalanche de lágrimas, respirou fundo e afastou as lembranças. Naquele momento, sentia-se mais só do que julgara ser possível um ser humano sentir-se.
De repente, lembrou-se de que havia uma pia cheia de louça suja. Dirigiu-se à cozinha, mas se deteve ao ouvir o sussurro de vozes que vinham do outro lado da sala.
— Que vergonha. Pobre moça.
Libby ouviu alguém responder.
— Oh, sim. Está completamente sozinha agora. Sem um irmão ou irmã para confortá-la. Nem mesmo um marido...
Ela reconheceu as vozes de imediato. A sra. Phillips e a sra. Fanshaw eram vizinhas de sua mãe. Ambas adoravam tecer comentários sobre a vida alheia.
— E quantos anos tem agora? — continuou uma das matracas. — Quase trinta, não?
Trinta e um, Libby teve vontade de responder, mas segurou as palavras ao ouvir a outra mulher exclamar.
— Santo Deus! Com essa idade eu já era casada e mãe de três crianças. Quando essa moça encontrar um homem para se casar, será muito tarde para gerar filhos.
— Isso é verdade — suspirou a sra. Fanshaw. — Se pelo mesmo as coisas tivessem sido diferentes no último abril...
O pensamento não foi concluído. Mas não era preciso. Todos em Ipswich sabiam do que ela estava falando.
— E pensar em todos esses quartos vazios —- continuou a sra. Fanshaw. — Pobres Matilde e Charles. Jamais tiveram outra criança.
— Gostaria de saber se Libby estaria interessada em vender esta casa. Não vai voltar para cá agora que a mãe se foi. Derwent sempre disse a Matilde que estaria disposto a comprar a propriedade. A vista da varanda é a mais deslumbrante de toda a Costa Norte.
Libby enrijeceu. Vender a casa da mãe?
— Claro que vai querer vender — persistiu a sra. Fanshaw. — Que outra escolha tem? Morando tão distante. Se não voltou enquanto a mãe estava viva...
Libby recordou o dia em que dissera à mãe que aceitou assumir um cargo na Belvedere Books, uma das mais conceituadas livrarias de títulos antigos de Manhattan. Era a oportunidade que sempre sonhara. Matilde pareceu ficar feliz pela filha.
Com bastante freqüência suas viagens em busca de livros raros a traziam à Nova Inglaterra, onde passava os fins de semana ao lado da mãe. Mas era obrigada a admitir que isso vinha se tomando cada vez mais escasso, desde aquele fatídico dia de... abril.
Era difícil enfrentar as recordações e os olhares das pessoas da cidade. Na realidade, fazia uns dois meses desde que estivera pela última vez em Ipswich. Embora, continuasse a manter contato com a mãe através de telefonemas, a cada dia mais raros.
Matilde morrera sozinha, tendo sido encontrada por um dos vizinhos.
Dr. Winston, médico da família desde que Libby era criança, disse que ela não apresentava sintomas de doença. Apenas o coração parou de bater. Tal como o relógio no canto da sala.
— Estou aqui agora, mãe — sussurrou, embora soubesse que era tarde demais.

                                                    BAIXAR


Nenhum comentário:

Postar um comentário