quinta-feira, 4 de junho de 2015

CONFISSÕES DE UMA EX




Confissões de uma ex

Abas: Agora que entrou para a categoria das ex-namoradas, Emma Carter tem todo o tempo do mundo para reavaliar muitas questões. Sua principal meta é entender o que significa ser uma ex em Nova York.
E nada melhor do que explorar todos os ângulos do inconfessável para se chegar a brilhante conclusão de que, na verdade, não está nem um pouco pronta para ser solteira novamente.
Para tornar sua situação ainda mais cômica - ou trágica -, ela é editora-assistente de uma revista especializada em casamentos, a Top Noivas, o que a qualifica como uma excelente consultora para todas as suas amigas que vão se casar - incluindo a própria mãe.
Com tiradas inteligentes e muita ironia, Confissões de Uma Ex é um excelente guia para todas as mulheres que são ou se tornarão ex-namoradas algum dia.


“Às vezes um ex-namorado é apenas um ex-namorado.”
- Ex-namorada de Sigmund Freud

Um

"Ex-namoradas não nascem, são criadas.”
— Emma Carter, ex-namorada em recuperação.

Confissão: Eu devia ter imaginado.

Minha amiga Jade diz que, se você namorar um psicopata, ele vai colocá-la a par das suas intenções desde o primeiro encontro, mesmo que com sutileza. E se estiver especialmente encantada pelo suposto psicopata, você apenas vai balançar a cabeça e sorrir diante da declaração, para então esquecê-la imediatamente.
É verdade que no nosso primeiro encontro Derrick contou que se mudaria para a Costa Oeste logo que vendesse o primeiro roteiro cinematográfico. Mas como o comentário veio à baila poucos instantes após o primeiro beijo — com direito à vista do pôr-do-sol no Hudson, ao longo do qual passeávamos num clima romântico —, não registrei que certo dia ele me abandonaria, mas só que a) ele tinha um beijo incrível e b) era escritor, o que se traduziu, em essência, como alma gêmea para mim. Eu era escritora... de alguma forma.
É um fato horrível da vida nova-iorquina contemporânea que cada homem por quem a gente se descabela seja ambicioso demais, criativo demais ou cobiçado demais pelo resto do mundo para ter ao menos uma hora no dia para a gente. Todavia não sei como, depois de passar as noites de fim de semana dos dois últimos anos enroscada com Derrick num futon em meu apartamento de aluguel congelado, cometi o equívoco de nos tomar por um casal do tipo Predestinado. Em especial, se considerarmos que nos encontramos contrariando todas as leis da probabilidade.
Nós nos conhecemos na plataforma do metrô da Rua 4 Oeste, no lado alto da cidade. O principal motivo por que reparei em Derrick foi o fato de estarmos vestidos de modo similar, com camiseta preta e jeans. E havia algo de tão tímido e desajeitado na maneira como ele tentou cativar minha atenção, que mal pude resistir.
— Oi — disse ele, insinuando-se mais para perto.
Por um instante neurótico, lembrei dos maníacos que ultimamente andavam empurrando mulheres distraídas nos trilhos, mas quando reparei no cavanhaque escanhoado com primor, experimentei uma peculiar sensação de segurança. Há algo de tranqüilizador, embora instigante, num homem de cavanhaque. Também me recordo de ficar fascinada pela nítida cor azul de seus olhos por trás dos óculos de armação metálica. Ah, e os óculos me fisgaram também. Adoro homens de óculos.
Era verão, e o ar pairava denso ao nosso redor.
— Está quente aqui embaixo — comentou Derrick.
— Como um sovaco — respondi, sem pensar.
Esse era exato o tipo de vulgaridadezinha grosseira pela qual Jade me repreendia sem parar. "Há certas coisas que simplesmente você não pode dizer a um cara, se espera ir para a cama com ele um dia."
Derrick me olhou um tanto esquisito, depois deu uma pequena risada e aproximou-se para se apresentar.
— A propósito, me chamo Derrick.
— Emma — deixei escapulir, quando o carro do metrô encostou, nos salvando de nosso diálogo estúpido.
Na verdade, a coisa que amei em Derrick de imediato foi de agir de maneira tão "não sedutora" — tão despreparado para seduzir que me seduziu de imediato.
— Saindo da cidade para o fim de semana? — perguntou, criando meu volumoso livro de bolso.
— Não — foi minha resposta nada espirituosa.
— Ah. — Ele observou minha bolsa com a testa franzida.
— Eu estou. Litoral de Jersey. — E ergueu uma sacola que, para mim, pareceu como se mal pudesse conter um frasco de loção bronzeadora e cuecas sobressalentes. Mas eu estava conversando com um homem atraente e aquela não era a hora para economizar palavras.
Quando o trem parou na Penn Station — o ponto dele — poucos momentos após eu explicar que me dirigia à Rua 85 para conferir a mostra do Guggenheim sobre "A Inevitabilidade Fálica e a Escola Surrealista" — uma jogada coloquial que me rendeu uma sobrancelha erguida de admiração —, cometi o primeiro erro tático. Embora Jade me aconselhasse infinitas vezes a jamais tomar a iniciativa, saltei do trem logo atrás de Derrick. O que eu podia fazer? Ao vê-lo na plataforma tateando à cata de uma caneta para anotar meu telefone, enquanto as portas permaneciam tentadoramente abertas mas sob o sério risco de se fecharem a qualquer momento — destruindo cada uma das minhas esperanças de felicidade —, entrei em pânico.

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